
Nenhum movimento musical conseguiu
superar a força seminal do punk. Incorporando a rebeldia primal
do rock n' roll, um bando de garotos eternamente inconformados
conseguiu transformar os padrões de comportamento em todos os
segmentos do mundo pop. Não é exagero nenhum dizer que o punk
mudou tudo - e não apenas no que tange à música. Desde os
primórdios, o estilo sustentou-se graças à sua multiplicidade.
Ser punk sempre foi algo maior do que ser apenas mais um fã de
qualquer outra facção do amplo universo da música pop. O punk
rock era um estilo de vida.
O Começo de tudo
O homem-chave no nascimento do punk rock atende pelo nome de
Malcom McLaren, hoje um senhor de 49 anos mais preocupado com a
produção do disco da top model Christie Turlington. A história
de McLaren começa a ficar interessante em 71, quando abriu a Let
It Rock, uma loja de roupas para a nova geração de teddy boys -
os filhotes das gangues originais, surgidas nos idos de 53. Desde
então, McLaren tornou-se uma celebridade entre músicos e
modernos londrinos.
Num dia qualquer de 73, os integrantes da banda protopunk New
York Dolls adentram a Let It Rock. O visual absurdo da banda (uma
mistura de glitter e sadomasoquismo) conquista McLaren e ele vira
seu empresário. Em Nova York, percebe o quanto os New York Dolls
estavam datados e deixa o barco.
Apesar de renegar os Dolls, o empresário trouxe uma idéia
bilhante dos Estados Unidos. Depois de sacar que o que valia no
mundo do rock em 75 era muito mais a atitude do que o som (vide a
decadência dos progressivos), McLaren decidiu
"construir" uma banda segundo seus novos padrões.
Mais uma vez em Londres, reassume sua loja - agora chamada SEX -
e transforma-a no epicentro do terremoto que sacudiria o mundo
pop, ajudado pela estilista Vivienne Westwood. Segundo o próprio
McLaren, foi ali que ele inventou o punk rock, ou melhor, os Sex
Pistols.
Reunir os quatro Pistols foi fácil: Steve Jones e Paul Cook
(respectivamente guitarrista e baterista) viviam na SEX. Glenn
Matlock - baixista e balconista da loja aos sábados - foi
convocado imediatamente. Faltava escolher o vocalista.
Depois de descartar o crítico Nick Kent e o cantor Richard Hell
para a vaga, a banda experimenta um velho freqüentador do
pedaço, um adolescente de dentes podres chamado John Lydon. O
teste é feito na loja, com o vocalista cantando numa jukebox.
Johnny, que nunca tinha cantado na vida antes, foi aprovado por
sua postura e comportamento anti-social, em resumo, era perfeito
para a vaga. Os ensaios começam. Agora a banda se chama Sex
Pistols e John Lydon vira Johnny Rotten (literalmente, Joãozinho
Podre).
O primeiro show acontece em 6 de novembro de 1975, um fiasco
inevitável dado o despreparo da banda. De qualquer maneira, ali
nascia o punk rock. A palavra que dá nome ao estilo não era
nova. Muito pelo contrário. William Shakespeare a usava para
qualificar prostitutas. Séculos depois a palavra transformou-se
no adjetivo patra designar sadomasoquistas. Esperto como sempre,
McLaren a escolheu como nome do estilo que ajudara a forjar - um
sinônimo para o lixo exposto por Rotten e companhia.
O movimento se alastra
Simultaneamente ao parto dos Pistols, dezenas de bandas começam
a abraçar o estilo, sobretudo em Londres. A epidemia alastrou-se
com velocidade absurda. O motivo para tanta rapidez era simples:
estava na hora de renegar a mesmice dos paleolíticos rockstars
da época.
Não por acaso, um jovem chamado Joe Strummer - sim, o vocalista
do The Clash - resolveu acabar com seu velho grupo, o 101'ers,
depois de dividir o palco de um pequeno festival com o Sex
Pistols.
O grupo The Clash foi formado em 24 horas, em 76. depois de um
encontro no mercado de rua de Portobello Road, Mick Jones
(guitarra), Paul Simonon (baixo) e Strummer já começaram a
ensaiar. Achar o baterista Terry Chimes foi apenas questão de
tempo. Como num passe de mágica, os Pistols tinham com quem
dividir as parcas luzes do circuito punk londrino.
O movimento crescia a cada dia e bandas não paravam de pipocar -
entre elas The Damned, the Stranglers, Siouxsie & The
Banshees, Generation X (que contava com um vocalista endiabrado
chamado Billy Idol)-, mas até meados de 1976 nehum disco havia
sido lançado. O primeiro compacto punk saiu em 5 de novembro do
mesmo ano, "New Rose" (The Danmed). Pouco antes, em 8
de outubro, os Pistols assinam o histórico contrato com a EMI -
a gravadora dos Beatles, The Animals e The Mamas And The Papas,
entre muitos outros.
Um mês depois chega às lojas o histórico compacto "Anarch
In The UK". A porrada acertou o alvo - o caquético império
britânico e seus valores -, mas não derrubou por completo o
adversário. Os Pistols ainda eram apenas conhecidos apenas no
gueto de onde surgiram.
Mas a televisão encarregou-se de levar o punk aos pudicos lares
ingleses. No dia 1o de dezembro de 76, Siouxsie, os Pistols e
outros punks são os astros de um dos programas de maior
audiência da TV inglesa, levado ao ar às cinco da tarde, a
famosa hora do chá, na qual famílias concentram-se frente à
TV. Depois do programa, dois milhões de britânicos passam a
amar ou odiar os Sex Pistols. Motivo: pela primeira vez na
história, a expressão "fuck off" (foda-se) é dita
diante das câmeras. O protagonista da história só podia ser
Johnny Rotten.
Melhor golpe de marketing impossível. A imprensa caiu de pau no
episódio, detonando os Pistols por completo e, de quebra,
levando o movimento às primeiras páginas de todos os jornais.
Dez mil cópias de "Anarchy In The UK" são vendidas
diariamente. Contudo os Pistols são chutados da EMI em 6 de
janeiro de 77. Começava o ano da glória da banda.
1977: o ano do punk
Glen Matlock nunca se deu bem com Johnny Rotten, apesar de ser
considerado por muitos o melhor músico do grupo. Em fevereiro de
77 as brigas encresparam - sobretudo no que se referia às suas
diferenças políticas - e Matlock é enxotado. A saída do
baixista motivou a entrada daquele que viria a ser o maior
símbolo do punk rock em todos os tempos, Sid Vicious.
O melhor amigo de Rotten era um baixista sofrível que mal
conseguia tocar, por estar o tempo todo chapado com drogas de
todo o tipo. Contudo, sua performance ao vivo e sua personalidade
autodestrutiva deram o toque final na fórmula do grupo. Vicious
dá trabalho desde o início: num dos primeiros ensaios, passa
mal e é levado as pressas para o hospital. Diagnóstico:
hepatite causada pelo alto consumo de álcool e drogas, é claro.
Apesar de terem cancelado dezenas de shows, os Pistols logo
assinaram um contrato com a gravadora A & M, Aproveitando o
jubileu de prata da rainha Elisabethi II, quando esta completou
25 anos no poder, a banda solta o compacto de "God Save The
Queen". A canção trazia uma das máximas do movimento
punk: "Não há futuro na Inglaterra."
Em março, foi a vez da A & M despedir o grupo. Os motivos
foram exatamente os mesmos da EMI, mas desta vez os quatro
Pistols e McLaren embolsaram cerca de 75 mil dólares cada um.
Dois meses depois, a Virgin contratou a banda.
Enfim, o grupo achara a gravadora perfeita. Dirigida por Richard
Branson - um jovem milionário excêntrico e quase tão maluco
quanto os músicos que contratara-, a Virgin banca todas as
brigas dos Pistols, inclusive o veto da BBC a "God Save The
Queen". Numa das raras entrevistas dadas pelos Pistols na
época, Johnny Rotten explica a revolta de sua banda: "A
música precisa dar assistência a todo esse lixo (a sociedade
britânica). A música tem que mostrar saídas para se vencer a
estagnação. Ela tem que ser verdadeira mas também
bem-humorada. E isso não é política."
O compacto chegou à terceira posição na parada britânica
enquanto a banda preparava seu tão aguardado álbum de estréia,
que acabou sendo lançado em 12 de novembro: "Nevermind The
Bullocks, Here's The Sex Pistols" ("Abaixo aos idiotas,
aqui estão os Sex Pistols). De repente, a Inglaterra ficou
pequena para o punk rock.
O último tiro dos Pistols
Mais uma vez os pioneiros são os Pistols. A banda foi para os
Estados Unidos em janeiro de 78( Leia mais em Sex Pistols na
América (em inglês)) e encontra o país no auge da febre disco,
apesar da aceitação do punk entre alguns poucos nova-iorquinos.
O visto de permanência no país valia apenas dezesseis dias, o
que força a banda a fazer uma miniturnê em ritmo de maratona.
Ela passa por Atlanta, Dallas, Tulsa e finalmente chega ao berço
do psicodelismo, San Francisco.
No dia 14 de janeiro os Pistols fazem seu último show, para uma
platéia de 5500 pessoas. Quatro dias depois, no restaurante do
hotel onde a banda estava hospedada, em San Francisco, Paul Cook
e Steve Jones dizem a Rotten que querem acabar com a banda. Pior:
McLaren pensava o mesmo.
O vocalista subiu até o quarto do empresário. Lá, ouviu
Mclaren confirmar a história e ainda expulsá-lo da banda, sob a
acusação de ser responsável pelo fracasso de vários projetos
do grupo - entre eles a famosa vista ao assaltante Ronald Biggs
no Rio de Janeiro, feita por Cook e Jones pouco tempo depois Onde
estava Sid Vicious enquanto sua banda chegava ao fim? Internado
num hospital, recuperando-se de um porre homérico.
Depois do desmantelamento dos Pistols, o baixista ainda gravou
algumas canções com Cook e Jones, como a absurda versão de
"My Way" e "Belsen Was A Gas", incluídas no
filme e disco The Great Rock N'Roll Swindle.
Vicious iniciou então uma carreira solo, acabada numa cela de
cadeia. O baixista foi preso pelo assassinato de sua namorada
Nancy Spungen, em 11 de outubro de 78. O fato nunca ficou
totalmenter esclarecido: o corpo esfaqueado foi achado num quarto
de hotel, com Sid completamente chapado de heroína ao seu lado.
O baixista foi preso imediatamente e só saiu da cadeia depois
que a Virgin bancou uma fiança de 50 mil dólares. Em 2 de
fevereiro de 78, menos de 24 horas depois de sua libertação,
Vicious sofre uam overdose de heroína no banheiro da casa de sua
mãe durante uma festa. Aos 21 anos, estava morto o
homem-símbolo do punk rock.
Malcom McLaren, Paul Cook e Steve Jones chegavam a Nova York
poucas horas depois, ironicamente com a intenção de manter
Vicious longe da heroína. "Não creio que Sid morreu por
causa dos problemas com os Pistols. O que eu não entendo é como
as pessoas que estava com ele na festa o deixaram consumir
heroína", disse Mclaren a Melody Maker dias depois da morte
do baixista.
O engodo assumido The Great Rock N' Roll Swindle só veio para
colocar um ponto final no mito Sex Pistols. Tanto o disco quanto
o filme são obras erráticas, que valem apenas pelo registro de
algumas das imagens - sonoras e visuais - mais importantes da
história do punk. Na sequência em que Vicious canta "My
Way" e estoura os miolos da platéia de velhinhos que o
assiste está resumida a história dos Pistols - um coquetel
molotov que arrasou a Inglaterra e mudou para sempre a história
do rock.
(retirado da Revista Bizz ano 11 Nº 04)